segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Bom dia, barata!

Hoje eu encontrei uma barata morta na cozinha. "Deve ter morrido de calor", foi o que pensei. Impressionante como minha voz interior é capaz de fazer piadas. Sabe, é que eu mesma havia pensado há pouco se poderia desfalecer ou mesmo falecer em breve sendo calor a causa mortis. Sei também que as baratas são resistentes ao calor, mas não posso conceber sua morte natural. 

De volta à nada bela surpresa que encontrara na cozinha, sabia que tinha de me livrar do corpo, mas não podia fazê-lo sem trocar de roupa. É intimidade demais desovar uma barata de pijamas. Então, seguindo uma lógica própria e muito particular, troquei-me para chegar ao cadáver. Empunhei uma vassoura e uma pá. Pá em punho, afastei meu braço o máximo possível de meu corpo, esticando o membro apavorada, temendo que a criatura pudesse despertar e sair de sua posição clássica de barata falecida, como que imitando uma múmia. Livrei-me do feio do mundo, jogando-o no lixo. E só agora podia eu viver.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O que os professores querem

Dia do professor no Brasil

                Gosto de pensar que grande parte da população brasileira sabe, em teoria, o valor e a responsabilidade dos professores como classe trabalhadora. Vejo a participação das pessoas nas redes sociais, que fervorosamente defendem nossa classe, eles dizem: “todo o médico precisa de um professor”, “o professor é o profissional mais importante que existe”, e a lista continua. Entretanto, em todos os níveis sociais -formados de cidadãos que precisam e dependem enormemente desses profissionais- vejo o profissional de educação ser diminuído e menosprezado. Às vezes intencionalmente, às vezes ideologicamente, acidentalmente. Na própria frase a respeito do médico mora uma crença naturalizada de que o médico tem mais status social que o professor.
                Primeiramente, tive de ouvir: “todo mundo sabe que professor ganha pouco, portanto, se você quer ser professor, tem de se conformar com um salário baixo”.  Depois vi colegas professores dizendo que não encorajam seus filhos a seguirem o mesmo caminho. Durante um estágio obrigatório na faculdade, ouvi professores que almejavam desesperadamente sua aposentadoria. Tinham desistido da educação pública brasileira. É claro que sim. Quem pode julgá-los?
                Em contrapartida, há o discurso romântico, daqueles que orgulhosamente exclamam: “o professor trabalha por amor”, “tem que ter dom para ser professor”, etc. A esse respeito, minha humilde opinião é que ambos os discursos nos diminuem e atrapalham. Primeiramente, pasmem: o professor é um profissional tão importante quanto qualquer outro. Tão indispensável quanto o menosprezado gari quanto os portadores de alto status social tais como engenheiros, médicos, advogados. Alguns discordarão disso, porém vejo a sociedade como uma rede de pessoas que precisam umas das outras, e, através dessa perspectiva, todas as profissões são indispensáveis.
                Quando as pessoas insinuam: “nossa, uma moça tão brilhante, poderia ter sido qualquer coisa, foi escolher logo ser professora” sinto uma piedade da qual não compartilho. O professor não é um coitado. Não tenham pena de nós. Lutem por nós. Tivemos a coragem de escolher fazer o que queríamos. Acreditamos. Obviamente, há exceções. Muitos se acomodaram e, como em qualquer classe, muitos odeiam o que fazem. Mas gosto de pensar nos professores como profissionais que aspiram por um país melhor e querem fazer parte dessa mudança. Não queremos fazer caridade. Queremos condições de trabalho. Trabalhar sem medo de nossos alunos, trabalhar com um número que nos possibilite memorizar os seus nomes.
                Recentemente, ao estudar para um concurso público, reli alguns textos pedagógicos sobre o professor no Brasil e quais são suas responsabilidades sociais. Muitos não sabem, mas, além de dominar os conhecimentos específicos, há o papel social do professor enquanto estimulador e figura responsável por criar oportunidades para a formação de cidadãos, seres críticos e pensantes. Amigos, essa é uma responsabilidade enorme! O professor é cobrado como psicólogo, como fonte segura de informação, como exemplo social, como apresentador do mundo, como “tradutor” da realidade. E enquanto eu lia, eu pensava: “caramba, por todas essas funções é só isso que eles vão me pagar?”
                O professor não trabalha por dom. Existem técnicas para que ocorra a aprendizagem, para isso fizemos faculdade. Sim, há aptidão para o cargo, assim como o há para vendedores ou pedreiros. Professor não faz milagre. Precisamos de estrutura, de respeito, de condições de trabalho e de uma lei que nos proteja. Precisamos de pais que digam a seus filhos que nos respeitem, porque, sim, nós somos empregados, mas isso nunca deveria significar que não merecemos o mesmo respeito e cordialidade quanto qualquer outra pessoa. Hoje os pais dizem aos filhos que eles nos pagam e isso de alguma forma distorcida os dá o direito de nos desrespeitar. Eles, que nos pagam, o fazem pelo que temos a oferecer, e deveriam valorizar nosso trabalho. Esse é um problema enorme, que vai muito além da relação professor aluno, tendo a ver com as atribuições de valor em nossa sociedade. A educação tornou-se um produto, como se não fosse fundamental para a vida em comunidade.  
                Precisamos de uma escola que tenha regras reais que ofereçam respaldo e proteção aos professores. Tenho colegas que saíram de sala de aula chorando, que foram ameaçados de morte, vi vídeos de professores apanhando, de profissionais que passaram por situações degradantes. Quando colegas meus dizem que não recomendam a profissão a seus filhos, eu entendo perfeitamente. Não devemos deixar o trabalho nos envelhecer, nos torturar. No entanto, para mudar essa situação precisamos de pessoas brilhantes, pessoas que poderiam ter escolhido qualquer coisa e não por serem heróis ou caridosos, mas por acreditarem em futuro melhor, tenham escolhido a educação. Não podemos acreditar em utopias, mas tampouco podemos desistir da causa.
Todos supostamente sabem como é importante ter profissionais de qualidade na educação. Porém, ao anunciar que sou professora, recebo condolências. Um discurso marcado por preconceito e falta de esperança. Às vezes, confesso que me pego pensando se seria mais satisfeita em outra profissão. Não porque não goste do que faço, mas pela falta de reconhecimento que nós temos. Por esse maldito discurso que sugere que ser professor é uma escolha estúpida. Se depender do senso comum, a classe entra em extinção. Se entrasse, talvez as pessoas percebessem nossa importância, e talvez nos oferecessem condições de trabalho melhores, turmas menores, salários maiores. Tenho esperança de que um dia, quando disser que sou professora as pessoas digam, com sinceridade: “que bacana!” em vez de “sinto muito”.
Podemos dizer que o professor trabalha com amor, mas não trabalha por amor. A escolha da preposição faz toda a diferença. Não trabalhamos por caridade. Vendemos nossa força de trabalho como quaisquer outros profissionais e devemos ser pagos de acordo com as responsabilidades que nos cabem. Queremos sim comprar livros, mas tanto para lazer quanto para estudo. Queremos ir ao cinema, queremos ter uma vida digna, um salário digno. Nada que desequilibre a distribuição de renda nacional, um salário com o qual possamos viver sem muitas preocupações. Que nos pague alguns luxos ocasionais. Queremos o que todos deveriam ter. O gari e o médico.

O ano de 2013 para mim se apresentou com um ano surpreendente. As redes sociais, os holofotes sobre o Brasil, o aumento de renda dos brasileiros e quem sabe o que mais, nos proporcionaram uma população muito mais politizada, que sabe o que quer, que procura saber para onde seus impostos vão, que colabora entre si e que está buscando se informar melhor e reivindicar o que é seu por direito. Uma população que vai para a rua, sem medo de um governo agressivo, desonesto e hipócrita. Uma galera que está saturada de não ter nenhuma política pública de qualidade. Neste dia 15 de outubro, haverá uma manifestação pela educação. Para que no futuro, as escolas públicas nas quais investimos nossos impostos possam servir a nossos filhos com qualidade.  Essa luta é de todos nós, é minha, e por isso eu quero estar lá. Muda, Brasil!

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Yoga e eu

União
Esta é a história de como o Yoga me encontrou. Em 2008 comecei a dar aulas de inglês e essa tem sido minha profissão e parte de minha identidade desde então. Trabalhei em diversos lugares e por isso conheci muitas pessoas.
Em 2012, um dos alunos que tive a oportunidade de conhecer disse que sua esposa precisava de aulas particulares. Eu sabia que ela era professora de Yoga e havíamos mencionado a possibilidade de escambo de aulas. Dei meu telefone e esperei pela ligação dela. Ela não ligou.
Apesar de sentir grande simpatia por ele, não conhecia sua esposa e passou por minha cabeça que ela talvez não estivesse interessada e que ele poderia estar pressionando-a contra sua vontade. Na semana seguinte, ele me perguntou se ela havia ligado, e, quando eu lhe respondi que não, pareceu decepcionado. O mesmo sucedeu por mais uma ou duas semanas, e ele mencionou por alto que ela não ligaria e que seria melhor se eu ligasse. Por sua insistência peguei o número e, creio que na mesma semana, telefonei.
Fiquei um pouco apreensiva, temia que não houvesse afinidade entre nós. Quando atendeu e me apresentei ela foi extremamente simpática e amigável. Combinamos um horário, concordamos em trocar aulas e quando desligamos o telefone, senti uma vibração boa.
Preparei sua primeira aula de acordo com seus objetivos, com vocabulário e expressões que ela poderia usar dentro do universo do Yoga. Tenho quase certeza de que incluí a palavra “knee”- joelho no vocabulário da aula. Mal sabia que ela já havia lido diversos guias de anatomia em inglês e sabia muito mais vocabulário que eu nessa área. Ela havia me falado que seu inglês era básico. Um grande exagero de modéstia. Apesar disso, ela repetiu o vocabulário humildemente, como se a palavra realmente fosse nova para ela, ou se a pronúncia lhe fosse nova. Fui conhecendo seu potencial e suas dificuldades.
Não sabia exatamente o que esperar da aula de Yoga. Não sabia o que era ou como era. Fiz uma pesquisa e até incluí um vídeo em inglês na aula. (Ela detestou o vídeo pois a praticante estava, segundo ela, completamente torta.) Ela colocava a mão no rosto e fazia caretas como se assistisse a um filme de terror. Foi engraçado.
Depois da aula de inglês foi a minha vez. Ela me ensinou movimentos básicos que eram extremamente difíceis de executar. Movimentos que eu nunca havia feito antes, como controlar e levantar os arcos dos pés, por exemplo. E, em pé, parada, eu suava e segurava a respiração tamanho o esforço que eu tinha de fazer para simplesmente alinhar meu corpo e levantar os arcos dos pés.
Devo ressaltar que eu não era sedentária mas estava lidando com músculos do meu corpo que ainda não conhecia, não tinha intimidade e sequer considerava poder controlar.
No começo foi muito difícil. Lembro de suar, sofrer e pensar que era muito chato ficar tentando acordar músculos e mexer ossos e articulações que dormiam há anos.
Depois ficou mais difícil ainda. Aparentemente, quanto maior seu controle sobre seu corpo, mais difíceis serão as posturas que você terá de executar, não por serem posturas mais complexas, mas porque você deverá fazê-las melhor que antes.
Imagine que você deve sentar-se de pernas cruzadas, com as palmas das mãos unidas em frente ao peito e fechar os olhos. Simples, não? Talvez, mas se você está aprendendo Iyengar Yoga e sua professora é uma perfeccionista viciada em alinhamento, vai ser bem mais complexo. Imagine que você deve distribuir o peso do corpo sobre os ísquios, os ossos de apoio que você nunca percebeu que tinha porque nunca sentou-se direito. Depois disso, concentre-se em manter o sacro (um conjunto de vértebras fundidas a quem você não havia sido apresentado antes) alinhado com a coluna lombar e as outras colunas até o topo da cabeça. As escápulas devem ficar encaixadas, o pescoço alongado, as costelas devem ficar perpendiculares ao chão, sem saltarem para fora. Tente relaxar os olhos, os pés e não contrair nada. Esse esforço deverá trazer relaxamento. Não se esqueça de respirar. Só que parece que quando você conserta uma coisa, outra sai do lugar. Respirar é a última de suas preocupações.
Como eu disse, vai ficando cada vez mais difícil, mas o que muda é sua forma de encarar a dificuldade. Passei a ver os desafios como necessários para a saúde do corpo, e passei a nutrir uma grande vontade de evoluir na prática.
Yoga significa união e busca unir o corpo, a mente e o espírito. A princípio, é realmente  incrível como temos pouco controle sobre alguns músculos, como se a mente e o corpo não se conhecessem apesar de morarem na mesma casa. O Yoga os apresenta e os estimula a interagirem entre si, criando oportunidades para que eles se ajudem a evoluir.
Aprendi a ter paciência com meu corpo e a compreender suas limitações. Comecei a buscar o equilíbrio entre se esforçar para evoluir e a respeitar a necessidade de descanso.  Hoje sei que preciso acordar meu corpo, tirá-lo da zona de conforto, tolerar algumas dores para alongar músculos que estavam quase  atrofiados. Descobri que meu corpo faz parte de minha personalidade e de quem sou. Que meus medos, inseguranças e ego estão impressos na forma como me sento, ando e falo. E se mudo a forma como me movo, mudo minha personalidade.


Algumas posturas nos assustam à primeira vista. Tenho medo de ficar de cabeça para baixo, apoiada nas mãos e na parede. Porém, quando me proponho a vencer meu medo, estou trabalhando a minha coragem, minha capacidade de priorizar meu objetivo além do medo.
Qual é a diferença entre o medo de fazer uma postura difícil e o de enfrentar uma situação difícil?  Muitas vezes não sabemos sequer o que nos assusta de fato, e é importante confiar em si mesmo e se permitir arriscar-se.
Em algumas posturas, aprendemos a manter os pés firmes no chão enquanto esticamos as mãos para o céu, buscando o equilíbrio entre o céu e a terra, entre o que se tem e o que se quer, entre o concreto e o abstrato.
Em todas as posturas que trabalham um lado especifico do corpo, trabalha-se o outro lado da mesma forma, e isso nos ajuda a ter paciência, experimentar a oposição e avaliar as diferenças e dificuldades que cada lado apresenta, sem negligenciar um ou o outro.
Há posturas em que olhamos para cima, para os dois lados, para trás, para frente, para baixo, e há aquelas em que estamos invertidos e precisamos reestabelecer todas as referências  de onde estamos e do que estamos vendo. Em algumas posturas ficamos em posição de imponência, coragem, força, em outras assumimos posições humildes e submissas, e percebemos que para aprender qualquer coisa precisamos nos aceitar como ignorantes e ter humildade.
Há posturas que nos relaxam, que nos transformam em pessoas mais flexíveis, mais abertas. Buscamos o equilíbrio, a firmeza, o desapego, a entrega. Sobretudo, em quase todas as posturas, olhamos para nós mesmos e analisamos o que estamos fazendo errado, o que precisamos mudar em nós, como podemos evoluir, e, na prática, começamos a mudar: tentamos ter o peito mais aberto, o olhar mais sereno, o corpo mais relaxado, a musculatura menos dura, mais alinhada, mais equilibrada. Admitimos, de verdade, que temos imperfeições e começamos a trabalhar nelas imediatamente. Buscamos conhecer quem somos e nos dispomos a melhorar o que podemos com paciência, gentileza e aos poucos.
Sexta-feira, dia 5 de abril de 2013, minha professora –que, depois de quase um ano se tornou minha amiga, minha mãe, uma de minhas inspirações- resolveu abrir meus ombros e meu peito. Trabalhamos arduamente, exigindo o máximo que eu podia pedir a meus ombros, ela comentara que meus ombros eram muito fechados, que carregavam muito peso.
Conforme eu ia abrindo os ombros ia ficando vulnerável e pela primeira vez achei que minha professora estava sendo cruel comigo. Comecei a ter várias impressões incoerentes como por exemplo, que ela estava com raiva de mim. Fui ficando sensível e magoada, comecei a me abrir, parei de me defender de tudo e, em Trikonasana (a postura do triângulo), quando abri o ombro esquerdo pela centésima vez comecei a chorar.
Não sabia porque estava chorando, ela me abraçou por algum tempo e depois fizemos umas torções para que eu me sentisse melhor.
Nos ombros carregamos o peso do mundo, de nossas responsabilidades, e creio que algumas defesas. Ela me disse que o caso mais comum era chorar com posturas que abrem bem o peito, pois no peito ficam alojadas mágoas e angústias e que ela conhecia muitos professores, além dela própria, que haviam chorado, geralmente quando a aula era intensa.
Agora sei que chorei não porque abri o peito, mas porque liberei os ombros. Chorei por deixar cair responsabilidades e medos que sempre carreguei comigo, chorei porque o mundo é injusto demais e ainda não consegui mudá-lo. A prática me ensina que esse peso é demais para mim e que tudo bem se eu não carregá-lo.
Por ser uma pessoa um tanto cética sempre soube que jamais uma religião poderia me trazer paz interior e sempre pensei nisso como uma infelicidade. Não sabia o que poderia me fazer evoluir, me mudar, me trazer sabedoria e humildade, me ajudar a ponderar sobre o verdadeiro valor das coisas, me ajudar a ser menos egoísta, a querer mudar. Acho que Deus, meu Karma, o Universo ou o Destino sabiam e trouxeram para mim.


ponte de pés desalinhados
Estou no começo do caminho, mas tenho prestado atenção e tenho aprendido a praticar comigo a mesma gentileza que ofereço àqueles que amo. Percebo que sou um grão de areia que, apesar do tamanho, busca ser melhor para si e para o mundo, e foi assim que percebi que o corpo, a mente e o espírito são uma coisa só. São acessíveis e podem mudar. Perguntei a um amigo (futuro médico) por que o corpo chora. Aparentemente, chorar não tem uma função, é uma consequência, portanto concluo que é nosso corpo falando por nós, é o que sentimos e o que pensamos transbordando para o plano físico.

terça-feira, 19 de março de 2013

Palavras boas para quem merece


Era um bebê de pele branca, grandes olhos escuros e cabelos muito negros. Um guri de sorriso sem dentes, que vinha fácil. Caras de indignação e mau humor às vezes também se firmavam em sua tez expressiva. Sobrancelhas unidas, olhos transbordantes. Transbordavam de alegria e tantas outras emoções efêmeras que um bebê pode experimentar.

Depois foi um garotinho engraçado, com dentes de leite arredondados, cabelinho penteado para o lado e uniforme do flamengo. Os adultos tentavam fotografar enquanto chutava a bola de futebol. Gritavam gol e celebravam, ele era o sorriso da casa, o pequeno rei do jardim da avó, que se tornava gramado, e chinelos marcavam as traves de um gol sem goleiro.

Cresceu mais um pouco, e gostava de atenção e de brincar mais do que de brinquedos. Gostava das pessoas, da tia, das primas que eram obrigadas a fazer tudo o que ele queria, porque eram mais velhas. Reclamava e cobrava seu direito de rei da casa, fazia queixa para a tia, dizia: “briga com elas que elas não querem brincar comigo.” E ela brigava mesmo.

Largou o futebol e abraçou o videogame. Jogava Playstation e se gabava das habilidades que o pai tinha no jogo. E quando alguém gostava de algum brinquedo ou jogo ele oferecia: “Você quer? Eu te dou.” E muito jovem aprendeu a ser generoso sem ninguém ensinar. Ensinava a generosidade a crianças mais velhas sem sequer saber que tal virtude portava esse nome. Sem saber o que era ser virtuoso. Sem intenção de reconhecimento. Se doava por amor. Por querer expressar amor. Por ter nascido sabendo o que muitos passam a vida toda sem aprender: sabia que as coisas materiais não tem valor algum. Sabia sem sabê-lo. Era inocente e livre das correntes que nos prendem às coisas que se compram. Prendia-se aos que o amavam. Mesmo sendo um menino, era muito nítido para ele de quem gostava e quem queria por perto.

Crescia mais e não gostava de ver ninguém chorando. Ia perguntar o que tinha acontecido. Ficava ao lado. Segurava a mão quando lhe diziam que não era nada.
Gostava de ficar com os primos mais velhos, gostava de piscina, de marco-polo, de bola, de frescobol. Perguntava sobre coisas que não sabia.

Adolesceu e formava, aos poucos, as próprias opiniões. E, adolescente, passava a debater em vez de perguntar. De tudo já sabia um pouco, e discordava de si mesmo de vez em quando, o que é muito natural, é claro. Quando não podia ter o que queria, abria mão do que já tinha para alegrar as pessoas que mais amava, como quando, no país do consumo, não conseguindo comprar seu desejado eletrônico, em vez de procurar outra coisa, usou o dinheiro que guardara para presentear seus companheiros de viagem à Disneyworld.

Jovem, experimentava, questionava e ainda questiona. Erra, descobre, se defende, não erra, acerta, quer, como todos, ser reconhecido. Tem uma visão um pouco diferente da que tinha antes sobre as coisas materiais, mas é claro: na vida se aprende a não se dar tudo o que se tem, caso contrário seria um santo  ou um tonto, e pra falar a verdade ninguém gosta de nenhum dos dois.

Espero que ele sinta, sem racionalizar muito, que a felicidade está em amar e receber amor, ter a atenção de quem se ama. Pertencer. Pertencer ao grupo de amigos da escola, pertencer a uma família que daria a vida por ele, fazer parte da vida, parte da foto, parte do churrasco, parte da festa de fim de ano, parte da festa do colégio, do aniversário da prima, do casamento do padrinho, da vida do pai e da mãe, mesmo que essas sejam vidas diferentes. Espero que ele saiba que palavras são muito importantes, que retém muito poder. Poder de consolar, de alegrar, de transmitir o que há de mais belo dentro de nós, assim como o que há de mais sombrio. Felizmente, temos o direito de escolher não falar. No entanto, não falar o que há de belo para ser dito pode ser um grande desperdício de afeto.

Do perdão também se faz a felicidade, e da capacidade de, antes de tudo, perdoar a si mesmo. Somente errando se pode evoluir, se pode fazer uma escolha melhor, se pode acertar. E para evoluir, devemos ser gentis com nós mesmos em relação aos nossos erros. Talvez não pudéssemos fazer nada melhor no momento, talvez não soubéssemos das consequências das nossas ações e por isso deixamos que elas reverberassem.

Gostaria que ele pensasse um pouco em como é bom saber que fazemos falta em algum lugar. Que as pessoas perguntam por nós, que queriam nos ver, que talvez pudéssemos somar ou contribuir para a felicidade de alguém que sente por nós somente amor. Que algumas palavras, sorrisos e principalmente a nossa presença faz diferença para alguém.

Talvez esse não seja um conselho dos melhores, talvez não seja sequer um que eu possa me gabar de seguir mas gostaria de dizer a ele que nunca economize palavras boas para aqueles que mais merecem. Especialmente para pessoas que se  importam com sua felicidade. Palavras vem de uma fonte que dura enquanto estivermos vivos, talvez durem até depois de nossa existência e o que podemos fazer é escolher as melhores palavras para deixar no mundo. Acho que as pessoas ao redor dessa pessoa maravilhosa que ele é talvez mereçam mais palavras, e talvez palavras melhores.

Ele tem um enorme coração, e me orgulho muito de ter conhecido um guri assim, de ter sido obrigada a brincar com ele, e de ter recebido inúmeras ofertas de brinquedos que ele queria me dar e não aceitava para não me aproveitar de sua suposta inocência. Lembro de na época pensar que ele era bobo. Quando a boba era eu. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O navio fantasma


Começo esse texto e me sinto um pouco perdida tanto tempo faz que não escrevo. No entanto me parece que não há mais nada que eu possa fazer.


De uma forma bastante misteriosa, hoje, enquanto arrumava e limpava meu quarto, retirei Nietzsche da estante. Um livro que ainda não li, como muitos que comprei e coloquei em fila. Compro livros muito mais rápido do que os leio. No primeiro capítulo deste livro, Nietzsche questiona a Verdade humana e a busca pela verdade. Por que buscamos a verdade? Sei que uns, mesmo confrontados com a verdade buscam a inverdade ou constroem a partir da primeira algo que a justifique ou impossibilite. Quando a verdade lhes é inconveniente, é claro.

Me parece que a Verdade não existe. Como pessoas, podemos somente produzir nossas impressões de supostas verdades. No entanto não posso negar a existência de fatos. Fato é que acordei cedo mas fiquei na cama hoje até 11 horas da manhã. Fato é que nasci no Rio de Janeiro em 1989.

O questionamento de Nietzesche não é novo para mim, mas se encaixou perfeitamente em meu dia e por isso chamo nosso encontro de misterioso, e até de poético. "quem com ela sonha é um tolo" diz ele sobre o nascimento da vontade da verdade. Então por que perguntamos? Qual é o impulso que move alguém a tirar os pontos, abrir a ferida e ver o que há por baixo da pele cicatrizada de um corte antigo?

O que leva mergulhadores à Naufrágios? Recentemente, presenciei uma exumação. Logicamente, foi uma exumação metafórica... Mas é incrível como alguns fatos que aconteceram há muito podem mudar toda a sua perspectiva e algumas opiniões quase cristalizadas. é como desenterrar um morto e somente durante a exumação descobrir que tinha dentes falsos. Segredos que o morto levara para o túmulo mas que havia compartilhado com o coveiro ante-mortem. 

A ignorância é, realmente, uma benção? A exumação que presenciei mudou todo o meu momento presente, e talvez isso prove a importância não da verdade, mas da recuperação de fatos para a construção de minha verdade individual. Quando me questiono se eu realmente queria estar presente no evento, se precisava realmente ver o morto, a resposta me parece muito clara. Se eu não visse o morto, viveria uma verdade bonita mas falsa, e a falsidade nela jamais permitiria que me fosse de fato bela. Então retorno aos conceitos do que é verdadeiro e do que é fato. E me questiono também sobre as decisões que tomaria no presente para lidar com o que me sobrara do morto. 

Obviamente, ver cadáveres não é uma experiência nada agradável e não posso recomendar o evento. Mas também jamais recomendaria àqueles que me são próximos a evitarem exumações ou conversas com coveiros. Exumações geram reflexões e mudanças são para aqueles que estão abertos à mudanças, a giros de 180°. Cadáveres podem ser extremamente desagradáveis e até vulgares.

Talvez, da sua experiência mórbida só reste a vergonha de não ter sabido antes. 

sábado, 10 de dezembro de 2011

Os olhos mais azuis do mundo

Hoje eu perdi uma amiga. Soube agora, pelo facebook, que Cris Mancuso faleceu. A princípio eu não acreditei, e liguei para o celular dela. Sua irmã atendeu e me disse que ela teve um infarto e foi cremada hoje pela manhã. Não sabia o que dizer, e disse que sentia muito, e eu sinto tanto...
A Cris era muito jovem. Era uma das pessoas mais generosas que já conheci. Ela era serena, ficava linda de cabelo curto e tinha os olhos mais azuis do mundo, com círculos azul-escuros em volta de suas íris azul-claras. Ela era minha amiga. Dessas amigas que te entendem completamente. Que conversam com você sobre tudo, que te dão apoio e cuja voz você sempre reconhece seja ela escrita ou pelo som. Que riem de você mesmo que te deixem com vergonha, por que sabem que você não vai se importar no final das contas.
A Cris falava baixinho e era gentil sempre. E eu me lembro de como ela pronunciava as vogais. Como por exemplo o "ei" da palavra "peixe". 

Ela adorava gastronomia, cozinhava muito bem. Sabia fazer bombons e ovos de chocolate. Uma vez ela fez pra mim. Lembro de como ela juntava as mãos quando estava nervosa, olhando para as unhas e franzindo a testa, lembro dela dirigindo, e lembro de como ela amava os gatos que tinha, e de como mexia no cabelo.
Ela adorava conversar, conversávamos horas e horas. E ela era tão especial. Uma pessoa que não conseguia jogar caixas de leite fora sem reciclar, uma pessoa que era tão doce, tão verdadeira... tão míope e engraçada. Ela era uma dama, uma pessoa sincera, de quem eu gosto muito. E dói demais a falta que ela vai fazer no meu futuro, os lugares em que ela não estará, as vezes em que não sairá comigo para um novo lugar (ou para um lugar antigo), as conversas que não teremos. Ela merecia coisas muito boas, talvez tão boas que esse mundo não possa oferecer a ela. Talvez por isso ela tenha tido que ir. Mas mesmo assim dói ter perdido essa amiga, essa mulher maravilhosa com quem cresci tanto, que me mostrou tanta coisa, com quem aprendi tanto. E ela era tão jovem e tão bonita, e hoje a beleza dela, sua voz, seus olhos, tudo ecoa dentro de mim, e é uma pena que o que sobrou da Cris esteja somente dentro de mim e das pessoas cujas vidas ela iluminou. Eu não mereço e não queria essa herança. Já perdi amigos, mas por futilidades e coisas que parecem estúpidas em um momento como esse. Essa é a primeira vez em que perco uma amiga tão próxima, tão íntima, para sempre. E como eu vou sentir a falta dela. Se ela estivesse aqui, brigaria comigo, me diria para parar logo com o drama, que estava tudo bem, e iria me abraçar consolar com sua voz tão baixinha e pequena "É, Lu... é fogo..." e é mesmo... Não existem palavras, só os ecos das palavras.

Vá com Deus, Cris, obrigada por tudo. Espero ter retribuído seu carinho ainda em vida, e de qualquer forma, nos veremos em breve. O tempo passa rápido. Vou cuidar para ir para um lugar tão lindo quanto o que você está agora, para que possamos conversar ainda muitas vezes. Você mudou quem eu era e foi um exemplo em muitas coisas. Eu me lembrarei de você sempre com todo o carinho. Eu te amei muito. Até.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

The taste of the (now) rotten fruit one did not try



It was a cloudy day and she was walking at her own pace. “No need to hurry. Not now.” She thought. It was pleasant to walk having trees around her. Her mind was floating back and forth between nothing and blurred thoughts she would not be able to remember even if she tried very hard. Forgetting what one thinks was hard, but do-able. Letting go of the pain, however, was impossible. She noticed a tree whose trunk was carved with dozens of names, maybe a hundred of them. Maybe more. She saw herself in that tree. She was the tree, carved with silent scars shaped as names of people who had been in her life once and forever on.

Her fingers touched one of the names. The writing was deep, quite visible and impossible to ignore. She felt sorry for the tree, as that name had been so mercilessly written on it. Illogically, she needed to let out one of the invisible names that had been carved into her core. She picked up a sharp stone and carved out of her the word “Nathan” on the trunk. As she had urged to be close to him for a more extensive time than what she could bare, her second instinct was to write her own name under it. Yet, something kept her from doing so. Instinctively, she walked towards a tree which stood right in front of the first one and there she wrote her name. Her name would watch Nathan’s from a distance, knowing she could never have him.

“Why does life have to ache?” Life was painful. It was exhausting. There were many things left unsaid. Things Nathan could have done, words she wanted him to have heard. Their moment had blossomed and grown mature as a fruit does. It had also turned rotten for no one had chosen to pick the fruit up. No one had been brave enough to taste it, and that fruit’s flavor would never be felt. It would never have a second chance to be as sweet as it could have been. Maybe some fruits are meant to rotten. Maybe it is their fate. All that was left now was the memory of something that could have been sweet to taste.

The fruit that is not chosen cannot complete its life circle. It dies from its rejection, it fails. Could a rotten fruit’s seed give life to a healthy one? Was love as fragile and ephemeral as she thought? All people were trees with invisible scars on them. A question that was constantly in her mind was if her name had been written on anyone as painfully as Nathan’s inscription had been to her. Did Nathan himself think of her?

Life was aching. Trees grow taller but cannot escape their roots. She was a prisoner. All people were.

terça-feira, 24 de maio de 2011

O bom, o mau e o humano

Ele contava mais uma vez a mesma história, falava de como a vida era injusta e como ele era bom demais para passar pelas dificuldades que insistiam em persegui-lo. A mesa estava cheia de conhecidos e amigos, e ele, é claro, tinha toda a atenção. Quando teve a chance, ela o segurou pela mão e, com seus olhos estreitos e firmes e a voz calma que sempre anunciava perigo: "Não fala mais disso não, vamos falar de outras coisas agora, de coisas melhores." Ele entendeu muito mais do que ela disse.

Dentro do ônibus, ele ouvia "Somewhere over the rainbow" e começou a fazer uma lista das melhores músicas suicidas.

Ela chorava sozinha, e não conseguia erguer a própria cabeça para se olhar no espelho. Concluiu que sentia vergonha de não saber ser alguém que não fosse ela mesma.

De longe , ela os vê abraçados e sabe que eles se amam, ela senta, a cabeça baixa, e se pergunta o motivo de várias coisas. Seu ceticismo fracassa e ela tem que admitir, pela primeira vez, que não controla o que sente. Um amigo a vê, ele sabe o que foi, ele também viu. Eles não precisam se falar.  Ele a empurra para o lado com o ombro e ela sorri por que sabe que ele não quer vê-la chorar.

Ele tem muito para dizer mas não diz.

Ela acha que aquele poema era pra ela. A música era pra ele.

Um dia ele a olha sorrindo e diz: "Acho que naquela época você salvou nossa amizade."

Ela pede desculpas pelo erro. A outra diz que precisa de tempo. Depois do tempo nunca mais seriam amigas e nunca mais foram. Ela acha que era pra ser assim mesmo.

"Você é uma melhores e mais generosas pessoas que já conheci." Ela disse. A outra sorriu.

Ele dissera que tentava não ficar chateado com ela, mas que era difícil. Doera ouvir, mas foi o que os salvou pela primeira vez. Ela sabia crescer.

Ela o vê e fica tão feliz que o abraça. Depois percebe que não podia.

Quando abre a pasta e tira as folhas sente o cheiro do perfume dela. Tem medo de aspirar demais e esgotá-lo.

Olha para a irmã e não se vê. Alguns minutos depois a ouve falar, e encontra a si na fala.

Ele diz que a ama. Ela sabe, ela vê. Percebe que crer é acreditar sem provas, e que amar precisa ser um pouco disso.

Vê fotos e se emociona. Haviam criado laços de amizade depois de adultos.

Eles não sabem o que está acontecendo de verdade, mas insistem em criar hipóteses.

A proximidade é extremamente perigosa para ela, que se pergunta o motivo de estar mais perto do que nunca.
Ela pede para ele mentir e ele não mente porque sabe que a verdade pode causar muito mais dano.

Eles dançam num lugar em chamas. Eles vão perder os sentidos.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Realidade

Encontrei uma foto na internet em uma coleção de fotos que parecem ter sido editadas mas não foram. É uma garota deitada no céu. Ela é real. Penso em versões da realidade e lembro-me da minha qualidade pisciana de confundir os dois, digo, o real e o que parece real dependendo do ângulo. Outro dia fiz um desenho de uma pessoa que caía em um grande buraco com nome de realidade. Achei que era eu. Não sabia o que aconteceria quando o tempo concluísse a minha queda. As quedas são dolorosas tamanha a facilidade do sonho para mim. Eu nunca busquei ser assim. Somos o que somos. Estou pensando nisso.




sábado, 12 de fevereiro de 2011

Saliva e Sangue

Começou com uma seringa. Nem chegou a doer, só sentiu umas picadas agudas. Depois de alguns minutos não sentia mais dor alguma, não sentia mais a pele, partes dela adormeciam como se mortas. Apesar do entorpecimento, sentia o peso, a força e a vibração das coisas.

Deixou os olhos bem abertos, olhava para a luz e tentava ver a si mesma no reflexo dos olhos que a olhavam. Sentia a própria pele sendo cortada e o sangue vazando como água que sai de calhas em chuva furiosa. Nada podia fazer. Suas mãos pesavam e apesar de todos os seus instintos nada fazia. Uma mulher sugava o sangue com um tubo pequeno e a outra a empurrava com diversos objetos que ela não conseguia identificar, mas sabia que era com muita força. "Isso vai doer quando a anestesia passar."

A médica usava as mãos para manter sua boca aberta, e depois de muito abrir e mexer, pegou um alicate. Ela sentiu o alicate segurar o dente e fechou um pouco a boca como a Dra. mandara através da máscara. A mulher então segurou o alicate e o forçou para baixo como quem abre a maçaneta de uma porta. Ouviu algo quebrar, e junto ao som veio a indomável sensação de que havia algo errado. Fechou os olhos, respirou pelo nariz "lembre-se de respirar, você não está respirando" disse a si mesma. A Dra. garantiu que não havia sido nada, era só o esmalte. A raiz estava intacta. 

A médica pediu ajuda à outra para abrir mais um pouco a gengiva e por isso ela visualizou uma grande abertura na própria boca. Sentia a saliva, a água e o sangue e tentou não engolir. Constantemente pensava que aquilo podia ser um tipo de tortura. Mais cortes, mais água, mais saliva e sangue, e enfim ela disse que não havia mais dente. Tinha acabado. Ela sentiu algo na boca, uma sensação exata de que seu enorme dente desenraizado estava pendurado por alguma pele na gengiva, olhou para a médica com olhos desconfiados, certa de que o dente estava lá, então a médica lhe mostrou o dente extraído, pedaços de gengiva cor-de-rosa ainda pendurados, quando sentiu de novo algo pendurado na boca, e instintivamente colocou a mão.

 Expirou em alívio ao sentir que nada mais era além do tubo que lhe sugava o sangue. A médica pegou uma longa agulha como nunca tinha visto e uma grossa linha preta. Não tinha acabado afinal. E não parecia que acabaria. Sentiu a gaze áspera na gengiva e na lateral da língua e era tudo muito desagradável, não sentia a agulha, mas observava a médica puxar e recolocar a linha incontáveis vezes. A médica lhe deu um algodão para morder. "A cirurgia foi ótima."-foi o que ela disse. Mas a paciente não podia rir do absurdo.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Eu não quero esquecer disso

São Gonçalo, 4 de janeiro de 2011. Era uma terça feira de chuviscos e céu cinza, e eu havia decidido ir ao mercado -aonde eu nunca vou- por que decidira melhorar definitivamente minha alimentação.

Voltando do mercado e me concentrando no peso das compras eu tinha esquecido da falta de rumo que havia me atormentado nos dias anteriores. Eu não havia me sentido completa em lugar nenhum, e aonde quer que eu fosse, não conseguia fugir de mim mesma. Meu maior fardo. As compras haviam conseguido afastar o pensamento e a falta de lar temporariamente. Sei que preciso encontrar meu lugar dentro de mim, mas nos últimos dias o meu interior era o lugar que eu mais queria evitar.

Ouvi um suspiro de cansaço ao meu lado e achei que era alguém da faculdade, dado o bairro no qual eu me encontrava. Olhei para o lado e uma mulher que eu jamais havia visto se desculpou, perguntando se me havia assustado. Respondi que não, que achava que o suspiro teria vindo de alguém conhecido, ao que ela, bem humorada, disse que não havia problema, que poderíamos nos conhecer.

Caminhávamos na mesma direção e fomos andando juntas enquanto ela falava das coisas que precisava fazer. Disse que ia resolver um problema com o namorado. Eu fiquei espantada com o tópico, achei que falaríamos de futilidades, mas em alguns minutos ela me contou a história de seu reencontro com seu amigo de infância, que ela não via há 30 anos e cujo sorriso era a única coisa da qual se lembrava. Me perguntou se eu tinha religião, o que é um ponto complicado para mim -o dom de acreditar, de crer não é uma virtude da qual eu possa me orgulhar- eu disse que não, e ela me disse ser espírita, o que me agradou. As pessoas que seguem o espiritismo me parecem muito equilibradas, e ela me disse que tinha total certeza de que esse homem era sua alma gêmea, disse que a alma gêmea é alguém com quem nos encontramos em várias vidas, que só existe uma e que pode demorar várias encarnações até que encontremos novamente essa pessoa. E se não estivermos prontos em uma vida, voltaremos em outra para aprender até que estejamos prontos para encontrá-la. Acho isso lindo. Eu já estava familiarizada com o conceito, mas foi interessante ouvir sobre o destino da forma que ela colocou. Nada é por acaso, ela me disse, afinal ela havia reencontrado esse homem agora, justamente quando pedira a Deus que acabasse com sua solidão e que quando Ele mandasse o homem certo lhe enviasse também um sinal. Ao ver o homem, ela havia tido taquicardia e quase desmaiado, e brincou que na próxima pediria a Ele para “pegar leve no sinal”.

Ela disse que não era mais adolescente para tremer e ter o coração disparando quando via alguém, e estranhamente eu sabia exatamente do que ela estava falando. Não acredito em muitas coisas, mas impedir manifestações exageradas de meus batimentos cardíacos tem estado fora do meu alcance há algum tempo. Ela disse ter 48 anos e se chamar Sandra, disse que morava algumas ruas mais a frente. Ela tinha enormes olhos azuis e um bom humor notável. Havíamos parado em frete a vila aonde eu morava para que ela pudesse terminar a história. Perguntou meu nome e o elogiou, quando nos despedimos eu desejei a ela e ao seu relacionamento profético tudo de bom, e desejei dentro de mim, de coração, que ela fosse muito feliz.

Talvez a quisesse bem porque soubesse que não a veria de novo. O fato é que me sentia imensamente grata pelo lirismo que ela despejara em meu dia chuvoso. Eu via as cores e todos os belos tons de cinza ao redor porque uma desconhecida se abriu para mim e falou de amor. Quando nos despedimos ela disse que 2011 seria um ano muito bom para mim “Você vai conquistar muita coisa”, foram suas palavras. Ela falava como se soubesse, como se tivesse visto acontecer, e apesar da minha dificuldade em crer eu acreditei.

domingo, 19 de dezembro de 2010

O maior Natal do Brasil

Primeiro gostaria de agradecer à minha amiga Beatriz Cecchetti pela inspiração, confiança e permissão para escrever esse conto. Eu me sinto realmente privilegiada por ter pessoas tão autênticas em minha vida. Obrigada, Bia.

O maior Natal do Brasil
“Com licença, o senhor sabe me dizer o preço desse ventilador?”- Ela perguntou ao homem que estava atrás do balcão.- “Ah, a senhora se incomoda em checar o preço na máquina? Eu preciso terminar isso aqui pra ontem.” - Respondeu ele enquanto cortava códigos de barras. Ela não queria se deixar irritar. Levou a caixa do ventilador até a máquina e fez isso diversas vezes para comparar os preços de diferentes ventiladores. Escolheu o produto que queria e levou-o até um outro balcão onde estava uma mulher com o uniforme da loja. Colocou o ventilador sobre o balcão e olhou para a mulher com expectativa. A mulher a olhou com as sobrancelhas erguidas, empurrou a caixa de papelão com as pontas dos dedos de modo que ela se moveu em direção à cliente e disse: “Eu não sou caixa não.” Seu uniforme tinha um crachá de gerente. Irritada, ela pegou a caixa e procurou forças para se desculpar. A mulher complementou: “Tem caixa ali, ó!” E apontou a direção com o queixo. Ela agradeceu pela ajuda e levou o ventilador ao caixa que era caixa de fato.

Seu ventilador era o último da loja e a caixa estava aberta. O homem pegou um grande rolo de fita adesiva para fechá-la e tentou descolar a ponta da fita adesiva do rolo com as unhas. Foi então que percebeu que ele quase não tinha unhas. Seu dedos tinham as pontas redondas e as unhas eram roídas até o que seria metade do tamanho normal. Ele arrastou a cabeça do dedo indicador no rolo de fita mas não conseguiu descolá-la. Tentou mais duas vezes fazendo força com o dedo mas a fita se recusava a descolar do rolo. Resolveu tentar descolar a fita com o dedo médio, mas sua unha era igualmente curta e débil, inofensiva à fita. Ela respirava lentamente, esperando. Em volta, a loja era nova e havia uma grande pilha de bonecas Barbie do seu lado direito e uma de laptops da Xuxa do lado esquerdo.

Depois de algum tempo, ela não sabia ao certo quanto, o funcionário conseguiu lacrar a caixa e lhe disse o preço. Deu o dinheiro, ao que o funcionário perguntou se poderia ficar lhe devendo dois centavos. Ela respondeu que sim, abaixando e levantando a cabeça lentamente, os olhos estreitos como quem sente um sono irremediável, sobrancelhas erguidas e testa franzida para expressar sua total despreocupação. Ele lhe entregou a nota fiscal e pôs o produto em uma sacola. Ela pegou o saco, colocou-o no chão, deu um passo para trás, olhou as pilhas de brinquedos e abriu os braços em um movimento exato. Caíram caixas e mais caixas cor-de-rosa pelo chão da loja.

O barulho era caótico e ela olhava o homem no caixa com serenidade: sem piscar, o rosto tranquilo. Os funcionários e outros clientes olhavam mas ela havia encontrado algo valioso no caos. Não se incomodou. Silêncio. Os funcionários da loja olhavam para a gerente esperando por alguma reação, qualquer que fosse. Ela olhou a mulher e disse “Obrigada!” com visível irritação. Ao que a outra respondeu: “Que é isso, amor! Obrigada a você, pelo atendimento!”

Quando saiu da loja já não era mais a mesma mulher que era quando entrara, ou talvez tivesse somente mais autoconhecimento.

domingo, 22 de agosto de 2010

Os pombos, tais como aquele rato ruivo



Andando pela rua vi pombos, quando lhes dei mais atenção percebi que um deles estava machucado, sua cabeça estava depenada em alguns pontos, deixando-o absurdamente asqueroso. Quis que o pombo não existisse. Quis não tê-lo nunca visto. Por que eu deveria ver um pombo careca e tão horrível? A feiúra do mundo me inquietou e incomodou, me senti violentada por ela. Seria mais fácil se o pombo não existisse. Mas acontece que ele existe, e me seria impossível amar realmente o mundo se eu não entendesse a existência do pombo. Penso em resoluções que preciso fazer e concluo que talvez e provavelmente eu seja para o pombo o que ele é para mim. Talvez eu ameace sua paisagem, eu, humana, sendo a minha existência absolutamente desagradável, sendo a minha raça a responsável pelo desequilíbrio do que um dia fora mais simples e melhor, menos sujo. Qual seria o habitat natural dos pombos? Que tipo de território deveriam os ancestrais dos pombos frequentar? Antes que criássemos a tão estimada "cidade"? Percebi uma urgência em questionar o que me faz pensar que o lugar aonde piso é meu e que o pombo é um intruso e não o contrário. Procurei imagens de pombos na internet para ilustrar o post. Não encontrei pombos asquerosos como eles ainda me parecem, encontrei pombos lindamente fotografados. O que me faz pensar que tudo é uma questão de perspectiva, qualquer coisa pode ser personagem principal. Encontrei também essa foto que me pareceu ilustrar o pombo como figura central e um homem em segundo plano. Imaginei o pombo como igual a mim, a questionar a existência do que nos é estranho. Depois ri, pensando no que o pombo poderia estar planejando. Não consegui saber de quem é a foto, estava em um outro blog de nome zeb.blogs.sapo.pt, então faço aqui a referência.
Estou pensando nos pombos.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Pensamentos Recentes

Hoje vi uma mulher com dois peitos. Ora, mas é claro que eram dois! Quando voce diz a alguém que viu peitos, a pergunta que se faz é "Onde?" e nao "Quantos?"...
Mas digo que ela tinha dois devido à enorme diferença de tamanho entre eles, o que os individualizava, um era absurdamente grande e o outro era grande. Pensei que isso era normal, que toda mulher tem seios de tamanhos diferentes, mas aquela mulher, coitada...
Ouvi também uma frase que me fez pensar. Um homem disse: "Olha o tamanho do Churros!"
Qual é o o singular da palavra churros? Todo mundo os chama de churros. Odeio churros. Eles sao bonitos, cobertos com canela e dourados, recheados de doce de leite ou chocolate. Da vontade de experimentar. Uma vez comprei um, odiei. Extremamente gorduroso, quente demais, doce demais, desagradavel mesmo. Comi até o final porque eu sou teimosa. Ou talvez por que eu tenha algum tipo de transtorno alimentar. Depois, outro dia, esqueci que nao gostava, eles sao tao bonitos... Comprei outro. Dessa vez de chocolate. Odiei mais ainda. Comi até o final. Cara, sério: transtorno alimentar!
Tenho passado muito tempo sozinha, e estou começando a me cansar da minha companhia, eu sou legal, ok... mas quero inovar, conversar com outras pessoas além de mim. Eu sempre concordo comigo e isso é chato. Mas tenho assistido a filmes novos, mais documentarios e tenho ficado meio desesperada com o mundo, o capitalismo, a manipulaçao das massas, o consumismo por si mesmo, a exploraçao e comercializaçao do meio ambiente e de valores antigos. Um aluno meu gravou dois documentarios para mim: SURPLUS e ZEITGEIST. Depois de Surplus eu queria quebrar tudo que representa o capitalismo e ir para um pais socialista comer so arroz e feijao todo o dia sem sentir o peso da fome dos pobres, da desigualdade social. Depois de ZEITGEIST eu queria simplesmente morrer. Sao otimos filmes. Recomendo.
Descobri que eu tinha um medo enorme de querer pouco da vida, de querer de menos. Mas hoje eu vejo como so o necessario é realmente essencial. Querer MENOS é ser mais independente, logicamente falando, precisar de menos é ser mais. Um exemplo tosco: um copo de agua de coco custa R$ 1,00, uma garrafa de 500ml custa R$3,00. Eu sempre optaria pela garrafa. Hoje comprei o copo. Por que foi que enfiaram na minha cabeça que "vale mais a pena comprar o maior"? Eu estava sozinha, so precisava de um copo para matar minha sede. Para que comprar a garrafa e desperdiçar ou guarda-la e deixa-la perder a frescura? Por que vamos a rodizios e comemos até passar mal? Da penultima vez que fui a um, comi muito mais do que o meu estomago queria deixar, passei mal, nao conseguia dormir e quando dormi tive pesadelos horriveis (tem tudo a ver, por sinal) e começo a me perguntar POR QUE temos a mentalidade do "dar prejuizo"? Por que sentimos que esse sistema se aproveita de nos, que nos explora, e essa é a nossa "vingança". Consumir até passar mal. Desde quando eu acreditei que MAIS era melhor?
Hoje eu percebo que nao é, e é tao injusto que sejamos tao instigados a consumir e comprar e comer e ainda caber nos malditos padroes de beleza. Por que eu tenho que ser alta e ter pernas longas e ser absurdamente magra e com um nariz desenhado a pincel? Para que alguem me VENDA uma cirurgia plastica. Meus amigos estavam me falando que ninguem deixa de gostar de ninguem por causa de celulites e estrias. Outra amiga me contou do cara na academia dela que malhava e tirava fotos de si mesmo. E eu nao consigo parar de pensar que isso esta errado. Mas ja passei da fase do "nao posso fazer nada, vou viver a minha vida" agora eu quero fazer alguma coisa a respeito. Quando eu descobrir, eu aviso.
;)

sábado, 22 de maio de 2010

Água



Tudo o que eu sinto é líquido. Líquido não fosse não transbordaria de mim como água salgada.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Para vocês, amigos

Sabe, a leitura sempre me fez bem, e escrever é um grande exercício. Como diria meu grande amigo Guilherme Lopes, escrever é extrair algum efeito estético da feiúra dos nossos dias, note que estou parafraseando... Mas meus dias não são feios. Eles começam escuros às cinco da manhã quando acordo, rendem nas minhas manhãs em Niterói no trabalho, esquentam durante a tarde no sol implacável de São Gonça, descansam à noite, quando eu penso mais claramente. Sou noite.
Escrevo quando dá tempo e quando as palavras já se rebelam dentro de mim. Às vezes sinto vergonha porque o que eu escrevo é meu. Meu idioma, minha forma de juntar as palavras em sentenças e essas sempre em textos curtos. Sempre curtos. Um grande prazer é pegar um texto como Joana, por exemplo, não me reconhecer ali, ler frases que me agradam e pensar, "nossa, mas como isso soa bem, fui eu mesma que escrevi?" Claro que o texto me agrada. Ele fala minha língua.
Melhor ainda é ler textos como os de Gui Lopes, Raquel Fernandes, Thamiris Oliveira e pensar: "mas que coisa linda! Também eles falam a minha língua. Sentem o mundo como eu."
É importante cuidar de nossos textos, corrigi-los, como guardar brinquedos para que durem mais. Para que não percam o brilho. Aqui cito Sra. Fernandes, 2010. É importante escrever para nossos amigos, com o mesmo esmero que se faz um texto, com o mesmo carinho que se guarda o melhor brinquedo.
Faz tempo que quero escrever para meus amigos uma grande carta de agradecimento, por me fazerem lembrar o que existe de bom em mim. Eles me escrevem cartas. Eles me dão abraços, me perguntam sobre minhas angústias. Eles bebem comigo.
Obrigada, amigos.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Death and all his friends...

She said to me, very calmly:
"Feelings fade. They die, and so do people. The sun rises and it goes so high in the sky that it turns into nightfall."
"But, to try..." But she would not let me speak any further.
"Doing your best, even when that is all you can do, is not enough. You can not try to swim faster than water, you can't try to hold the sun up in the sky, it would burn you without any mercy. Because you are in it. You are in water, you cannot fight it, but you don't have to drown. And I know that you believed what you did would be enough... I mean, you did great, but you were not even close. I told you, girl. I know how smart you are. Do not believe in lies..."
"They were so sweet, so easy to believe in..."

sábado, 24 de abril de 2010

Adrenalina, medo, realidade e relatividade

Pedro de Carvalho, Méier, RJ. 5:30am.
Estava andando até o ponto de ônibus para pegar o 232, pararia na frente do prédio em que morei durante os dez primeiros anos da minha vida. Pensei no perigo, mas é sábado. Os bandidos ainda devem estar dormindo, de folga. Hoje sonhei que quase tinha sido assaltada. Um homem tentou me abordar, mas o pessoal do taekwondo me salvou. Não pratico Taekwondo desde 2007, 2008. Estranho sonhar com eles. Nos meus sonhos eu sempre travo, fico em choque, a voz não sai... É bem ruim sonhar esse tipo de coisa. Enquanto caminhava mentalizei que nada aconteceria comigo. Um grupo de três pessoas me perguntou alguma coisa e continuei a andar, como na maioria das vezes faço. Depois de alguns segundos percebi que tinham me perguntado as horas. "São 5:35. Desculpa, eu não tinha ouvido, tô com sono..." E ri. Continuei andando até o ponto e eles agradeceram e disseram que já iam me xingar ou pensar mal de mim, sei lá. Porque eu não havia respondido. Andando para o ponto vi um cachorro enorme. Me perguntei o que era aquilo. Deveria ser um São Bernardo, me aproximei mais, o pêlo brilhava e era curto, o rabo era fino e vi que não era São Bernardo coisa nenhuma, era um porco. Um porco enorme, o que ele estava fazendo lá eu não sei. Sei que atravessou a rua e eu ri, porque achei engraçado o fato de a primeira vez de eu ter visto um porco adulto de verdade ter sido no meio da rua, na capital do Rio. Duas mulheres se aproximaram de mim. "Vamos sentar aqui e esperar o ônibus." Fiquei um pouco tensa, mas não me movi. "Você tem horas aí? Que horas são?" Essa das horas está ficando velha, na hora lembrei de um amigo da faculdade, o Felipe. Ele é um doce de pessoa, super educado, e me contou que uma vez perguntara as horas para uma mulher na rua, e ela começara a correr. Eu ri muito. Agora não era engraçado. "São 5:40." Eu respondi, seca. "Chega aqui perto de mim pra eu ver as horas no seu relógio." Enquanto falou tinha um olhar de algo que eu não via há muito tempo. Talvez nunca tivesse visto antes. "Não, eu tô muito bem aqui, são 5:40." Ela estava a um metro de mim, reparei que não carregava nada consigo. A outra mulher não falava nada, nem lembro de seu rosto. Na verdade, esqueci todos os rostos que vi nessa manhã. Ela insistiu. "Vem aqui pra eu ver as horas..." Eu tinha que pegar o ônibus para ir pro trabalho, pensei em esperar naquele mesmo ponto. Só sabia de mais um ponto de ônibus, e então eu sinceramente não me lembro o que foi. Se foi uma voz, um impluso, uma outra coisa. "Corre." Eu saí correndo. Corria pela Pedro de Carvalho e pensei em voltar pra casa, mas não teria tempo de abrir o portão antes que elas me alcançassem... Não! Eu tenho que ir pro trabalho! Os pensamentos voavam pela minha cabeça, eu não sabia se elas estavam vindo atrás de mim, eu não tinha coragem de olhar para trás. Havia pouquíssimas pessoas na rua, e elas não sabiam porque eu estava correndo. Corri até que minhas pernas começaram a doer e eu desacelerei. Começei a andar num ritmo ainda rápido, quase chorando, completamente tensa, mal conseguia respirar. Andei assim por algum tempo. Ouvi passos, olhei para trás e uma delas vinha atrás de mim correndo, segurei a mochila com força e corri, começei a gritar e saiu da minha garganta uma voz que eu não conheci, era rouca, completamente distorcida e arranhava a minha garganta e me assustava, eu gritava "socorro", eu nunca havia gritado essa palavra na minha vida, e o que ela significa afinal? Ninguém veio. Aquele porco era um mau agouro. Eu gritava por socorro, gritava por puro desespero, daqueles bem fortes, puro, antes de refinar. Essência mesmo. Desespero concentrado. Um homem perguntou o que foi, mas quem era ele e o que ele fazia ali antes das seis da manhã? "Estão vindo atrás de mim!" Eu tentei dizer, mas acho que não saiu bem assim, eu não respirava direito. Acho que quando eu começei a gritar ela desistiu, não sei, continuei correndo até o fim da rua, eu não olhei para trás, mas senti que ela não estava mais me seguindo, uma mulher me viu correndo, me perguntou o que havia acontecido e eu disse "quase fui assaltada agora" e ofegava enquanto continuava a correr, perguntei aonde era o ponto de ônibus, ela respondeu. Quando cheguei lá ainda aspirava o ar como se nunca houvesse respirado, e uma outra mulher me perguntou se eu estava passando mal. Disse que quase havia sido assaltada, ela comentou que eu não devia ir até lá, porque era muito perigoso. Eu estava completamente tensa, e quando as pessoas que estavam lá pegaram seus respectivos ônibus eu senti medo por estar ainda mais sozinha. O 260 enfim chegou, depois do que me pareceu uma eternidade. E só então eu começei a pensar nas coisas que eu levava na bolsa. Elas levariam meu Rio Card, levariam minhas chaves e eu não teria como ir pra casa porque a vila so abriria mais tarde e na república as pessoas que moram comigo só chegariam segunda-feira. Levariam o meu celular com todos os meus contatos, meu estojo com os dados do Luiz. A chave que abre o armário do trabalho também. Levariam meu cartão do banco, meus óculos escuros e minha agenda, mas não que eu estivesse ligando muito para nada disso, eu só queria me sentir segura de novo, parar de ter medo. Indo para as barcas um homem tropeçou ao meu lado, e eu por reflexo segurei a bolsa e me afastei para o lado, como um bicho-do-mato mesmo. Arisca. Eu me perguntava quando esse medo ia passar. Queria falar com a minha mãe. Lembro que quando era criança, antes mesmo de nos mudarmos do Rio meu pai me perguntou o que eu faria se viesse alguém na minha direção me fazer mal. Eu lembro de responder "dou um chute no saco!" Ele falava, decepcionado: "Não! ...Você corre, se você correr, ninguém nunca vai te pegar" e eu, contrariada porque não dera a resposta que ele queria completava, "tá bom, mas antes de correr eu dou um chute no saco!" Ele então aprovava. Eu nunca pensei que poderia me sentir tão vulnerável, tão mortal. Pensava que meu pais sempre me protegeriam. Cheguei em Niterói, e ainda sentia como se todas as pessoas em volta fossem me atacar subitamente. Tinha que ir ao banco. Havia duas mulheres sentadas nos degraus do Banco Real da praça do Rinque, e é claro que em vez de ir ao banco eu entrei na padaria. Pedi um suco de laranja que eu não queria tomar, mas ainda eram 7 horas e o curso só abriria às quinze para as oito. Logo chegou a Luciana na padaria também. Ela trabalha comigo e foi a primeira pessoa a saber do que quase aconteceu comigo. Ela me abraçou e ouviu. Ela já foi assaltada, mas teve menos sorte, o homem que a assaltou deu um soco no rosto dela. Eu já sabia dessa história, e sabia que era muito pior do que a minha. E depois de alguns minutos estávamos rindo das situações. Acho que isso só deve acontecer aqui no Brasil. Levamos tudo de um jeito tão leve, a violência nos é tão comum que rimos dela. Ter medo tornou-se corriqueiro, rotina, banal. Acho que a Saci-(minha amiga que me ajuda a perceber o que é normal e o que é coisa de brasileiro) nunca riria numa situação dessas. A Saci (lê-se: "shótsi") é Húngara, então para ela é mais fácil visualizar esses fenômenos culturais. Enfim, pensei um pouco nisso e fiquei um pouco chateada quando minha prima riu quando eu disse que gritei desesperada pela rua. Mas é compreensível. Afinal, não aconteceu nada. Pelo lado Polyanna-visualizando o lado positivo- fiquei feliz porque eu reagi e não congelei como sempre pensara que faria numa situação de perigo, fiquei feliz porque a voz saiu quando pensei que não sairia, e também porque agora tenho certeza que se ela viesse me agredir eu saberia me defender. Me defenderia como me ensinou o Mestre Murilo. No taekwondo há uma filosofia de nunca recuar perante o inimigo, o que é exatamente o oposto do que eu fiz, mas acho que foi a melhor solução...
Este relato é todo verídico, incluindo o sonho, e tudo aconteceu esta manhã. Agradeço a Deus por ter me dado a adrenalina necessária para correr tanto, a voz pra gritar igual a uma louca, e a maturidade para entender que isso foi um aprendizado, pois eu não vou mais pegar o 232 e vou passar a ser mais alerta, e dividir minhas coisas em vários bolsos. Além de usar menos relógio. E saber que há pessoas passando por coisas piores do que eu, que vão além da minha compreensão, como aquele olhar da mulher que queria tanto ver as horas no meu relógio. Era um olhar de malícia, de um mundo que eu não conheço, que não é "a minha realidade". Chamei-a de mulher o tempo todo, e pode parecer que ela é bem mais velha do que eu, mas ela deve ter mais ou menos 25 anos. Pensei muito nesse conceito de realidade. Do que é real para mim e não é real para ela. As coisas que ela não levou de mim. Que não são realidade. As coisas que ela não teve, e penso que eu queria, mas queria mesmo, que ela pudesse ter tudo o que eu tenho, e não fosse real para ela a vontade de tirar qualquer coisa de alguém. Queria que não fosse real para mim sentir tanto medo, e para ela causar tanto medo. É difícil entender, mas acho que ela não vê as coisas como eu vejo, ela não teve a oportunidade e nenhum incentivo para pensar um dia ser capaz de comprar o próprio relógio. A realidade é desigual, e está extremamente ligada à relatividade. Pensemos no certo ou errado e nas realidades relativas. É errado que ela queira roubar o meu relógio. Mas também é errado que ela não tenha condições de comprar um. É errado que eu tenha um e ela não. Estou falando de distribuição de renda, de desigualdade social, dessa nossa ideologia burguesa de que não há lugar para todos, de que temos sorte, de que ser pobre é carma e de que não há oportunidades, o que gera inveja e frustração. Vejo que haveria oportunidade se soubéssemos partilhar. Fecho o post então com uma pergunta: A culpa é de quem?

sábado, 10 de abril de 2010

Joana

Ela queria porque queria. Escreveu um poema sobre si, sobre o outro e tudo o que havia acontecido entre eles. Li o poema e sorri calado. Me incomodava, mas era pouco. Não sei se me apaixonei por ela ou pelos poemas, acho que foram os versos declamados saídos de sua boca volumosa e sorridente, dizendo coisas de sexo e beleza, os olhos doce-de-leite brilhantes, cor de âmbar e sempre espertos sorriam amores passados e orgulho dos seus versos.

A amei quando começou a declamar em público. E Joana não cabia em si, não se pertencia, pertencia a eles. A todos nós. A personalidade geralmente forte sucumbia aos elogios em sorrisos mudos. Um homem havia chorado por um poema, chorara por ela e agora a elogiava. Ela era um dos poetas mais respeitados do evento. Lembro de uma vez em que nos amamos e conversamos despidos de tudo. Ela tinha uma leveza em todas as ações, como se fosse natural, mas Joana era uma atriz. Nunca sabia se deveria acreditar nela. 

Sei que estava comigo porque queria, como também sei que houve vezes em que ela fingia que aquilo não era nada. Como se nada para ela fosse nada demais. Sempre que falava pouco era porque tinha milhões de pensamentos turvos. Às vezes acho que duvidava de mim. Eu sempre duvidava dela, daqueles olhos doces cheios de promessas que sua boca se negava a fazer. Ela sempre se fazia leve como música. Um dia sentei-me no meio fio da calçada. Era uma manhã fresca, com uma brisa leve e gelada, sentia-me vazio, até começar a ouvir uma canção. A música me preencheu, ainda estava só, mas nunca tão bem, em equilíbrio comigo mesmo. Joana era assim. Me invadia, e eu me fazia feliz ou melancólico conforme o ritmo em que cantava. Me era saudável vê-la feliz. Chorava como uma criança de modo a me desconcertar, desmanchava-se, destruía-me o seu rosto vermelho das lágrimas. As lágrimas e aquela outra coisa que existe no choro, substância invisível, que sufoca o peito, altamente contagiosa para mim. 

Ela era brisa leve, quando me levava para si. E era tornado. Parecia estar sempre cercada de rapazes e homens interessados, como se farejassem sua essência e desprezassem sua alma. Sempre achei que Joana flertava com o mundo, isso fazia bem para ela.Havia mil coisas que eu queria dizer, ela deitada no meu peito. "Você é especial, sabia?" eu pensava tanto nela, ainda penso. E foi só isso que eu disse. Como muitos homens poderiam ter dito, sem lirismo ou rimas, sem sonoridade, fato cru para quem escrevia poemas. Alguma coisa acontecia comigo. Eu tinha medo dela e de tudo que ela me causava. Essa força que ela tinha sobre o mundo, sobre a minha vontade. Ter força sobre a vontade do outro é infinitamente mais poderoso do que ter controle sobre ele.Não busco uma mulher como as pessoas fazem. Não listo qualidades que estimo, na verdade, isso não me importa, nunca me importou. Veja bem, não estou dizendo que ela não possuía qualidades que admiro, digo que Joana me levou porque me desconcertava. São raras as mulheres que admitem fazer sexo, quantas menos as que admitem gostar dele. E Joana tinha o cheiro da volúpia."Você é especial, sabia?" "É?" Ela disse. E sorriu.