sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Objeto Não Identificado

Eu estava lendo. Ou achava que sim. A cabeça inclinada e os olhos na direção das letras, de alguma forma a minha mente se concentrava em algo que eu não sabia o que era, que meu subconsciente escondia de mim. Foi depois que meus olhos começaram a arder levemente que eu percebi que não pensava em nada, nada que eu pudesse dizer o que era. Um espaço branco. Eu não sabia quanto tempo tinha durado a minha falta de consciência, quanto tempo tinha durado essa inexistência minha no mundo. O que era aquilo? Aquele fenômeno magnífico e incontrolável que me tirava de frequência, que me tirava do mundo enquanto eu estava sozinha. Ausência.
Demorou alguns instantes para que eu voltasse à realidade. Onde eu estava? Meus olhos tinham escorrido por toda a página mas eu só tinha realmente lido o início. Não sabia o que tinha acontecido comigo, para onde eu tinha ido. Eu tinha morrido. Eu tinha sido ausência, falta de consciência entorpecida e não identificável, nem mesmo por mim. Não doeu nada, nem existiu.

domingo, 11 de janeiro de 2009

idêntico

Espelhos pra ela se ver
venta o tempo
vazio dentro
espelhos pra ela se ver...
o sorriso congelado
em silêncio
espelhos pra ela ser...

domingo, 4 de janeiro de 2009

Escrevendo poesia: Negação Total

uma parte dela doía,
uma parte que ela nem sabia
existir dentro do peito
e do lado esquerdo
ficou um estreito
buraco.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Rubem Fonseca pra viagem

Finalmente volto à Faculadade. Me inebrio na incrível atmosfera de conhecimento, e apesar do desânimo de todos, um sorriso meu se destaca de genuína alegria e sinto novamente a euforia de ser estudante, de ser desafiado... Mas não é disso que falarei. Para voltar à horta da minha mente, pego um ônibus, esse ônibus leva no mínimo duas horas de viagem... Se incomoda? Já me acostumei, vale à pena, nesse ônibnus o ócio já me deu inúmeros presentes. Vozes minhas que contam estórias, constróem personagens e se calam quando há algo de bom para se ler.
Nessa sexta-feira, uma amiga carregava consigo um livro de contos de um escritor que me fascinara alguns meses antes... Eu só tinha lido um conto de Rubem Fonseca. Não é preciso dizer que o livro obsceno (digo obsceno pois trás à cena o que normalmente fica na parte de trás do palco) foi parar nas minhas mãos. Devorei os contos, e descobri que apesar de separados, seguem um fluxo contínuo dessa obscenidade, responsável por desconstruir as estratégias usadas para ignorar as Secreções, Excreções e Desatinos que nós, humanos, temos.
Os contos são curtos e não perdem sua genialidade e maestria, são todos incomuns, falam de crenças que fingimos não ter, coisas que não temos orgulho de fazer ou pensar, e tem um ar de ficção que cai num quadro de como as pessoas são na vida real, onde o leitor pára de ler e dá um mudo sorriso. O que mais me fascina é a capacidade que ele tem de ser tão realista no discurso impróprio que ele não incomoda, não choca... O leitor só precisa saber como é o final. Um livro que não se lê, mas se devora, com todas as emoções que vêm ao ler o título.
Queria saber escrever assim... Mas... se não posso ler a mim mesmo, posso ler o Rubem. Esse tal de Rubem Fonseca. Sonoro, não?

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O décimo quinto verso

Era uma folha em branco. Não tinha muitos amigos, diziam que ela era vazia. Sentia-se vazia, via-se vazia. Era imaculada no entanto, e ninguém poderia negar isso. Ninguém negaria isso.
O que a cercava era uma grande expectativa, porque nela caberia qualquer coisa. Palavra, imagem, pessoa, máquina, planos, plantas, rascunho... Ela era livre. Vaziamente livre. Podia ser nada, mas isso embasava todas as possibilidades. Possibilidade era melhor, muito melhor que ter uma função específica, previsível e perpétua.
Era melhor do que ser uma crônica ou conto, cheio de adjetivos mal empregados. Não queria ser um desperdício. Queria ser importante, protegida por importância. Como uma foto de alguém morto. Ninguém é cruel com a foto de alguém morto. Mas não queria receber olhares piedosos. Já sonhara em ser poética e efêmera, como o primeiro verso de um poeta, mas sabia que esse primeiro verso teria um destino infeliz: lixo. Porque o verdadeiro artista vê que seu primeiro verso não passa de carbono bruto. Poderia ser o décimo quinto soneto de um poeta experiente, mas não via lirismo nessa opção segura. E a cada segundo de vazio via que não cabia a ela escolher o seu destino. Caminhos são para serem traçados, mas ela não faria escolhas, não era um viajante ou andarilho, estava perdida e presa, presa não sendo, sendo o caminho, esperando. Esperava ser traçada, afinal, estava em branco. Uma carta de amor acaba molhada por lágrima solitária, e morre na beleza da desilusão... Não sonhava esse fim. Queria viver para sempre... Mas ainda era nada. Branco.
Ironicamente, tornou-se amarela ainda estando em branco, nada. Nenhum novo projeto, planta, máquina, palavra ou pessoa de peso começaria em uma folha amarelada, mesmo se em branco. Esperou infinitamente e numa terça-feira nublada viu-se preenchida. Nublado, ameaça de chuva. A criança, presa em casa, riscava com força o giz de cera sobre o amarelado, descontando a fúria da prisão. "Desenha uma casa bem bonita pra mamãe". Então ela seria uma casa... Nada mau, se a menina tivesse talento... Nunca quis ser uma casa de giz de cera, mas era melhor que rascunho... Folha de recados... E pensou na distância do flutuante vazio entre o que ela era e o que seria, quando tocada, seria outra, seria o que levasse do lado de fora..."Toma", e a menina a entregou para a mãe. Não teve tempo de entender o que era antes de ser amassada e arremessada na lixeira, então a voz da mulher se afastou, cada vez mais furiosa, e antes de perder a consciência..."Sou um rabisco".