Você sente uma dor tão aguda que não cabe em seu âmago, ela toma todo o seu corpo e parece se expandir como uma nuvem. Densa como uma nuvem. Você pensa “escreva a dor”, e escrever não parece fazer o menor sentido, “fodam-se as palavras”. É tudo um teatro, umas palavras bonitas. Nada como sentir a dor, o espatifar de alguma coisa dentro de você que você não sabe o que é. Alguma coisa quebrou. Como um copo pesado que estilhaça em duzentos pedaços que socam o resto do peito. E tudo dói.
O choro pesa como pesam as palavras que escorrem forçosamente para baixo da garganta. Elas caem lentamente se arrastando pelas paredes provavelmente vermelhas que existem na parte de dentro do seu pescoço, depois da sua boca. Você engole e a dor vai pra lá. Respirar incomoda e existir incomoda. A cabeça dói. E você aperta os olhos, os lábios tremem.
Sua aparência deve ser horrível. A dor é feia. Ela sai, está do lado de fora como está por dentro, e palavras voam por sua mente, que merda todas essas palavras. Na sua cabeça Clive Owen te diz que o coração é um punho coberto de sangue. Tão coerente.
Você segura a respiração e essa forma arredondada que parece estar na sua garganta, acha que tem controle sobre ela. Mas ela não vai embora e é difícil entender. E você tampa a boca pro choro não sair, pra não ganir como um cão, para ninguém escutar a sua dor.
É injusto que essa dor exista. Ela existe pra você, é só sua. Tudo que aconteceu em toda a sua vida parece caminhar para esse momento, essa angústia pesada que te deixa com dor de cabeça, de tanto que você se segura pra não chorar, ou não chorar mais do que já chora. O seu corpo chora por inteiro, e você está sozinho. É tudo para você. Você precisa gritar, mas não grita. Não chora. Não gane como um cão, afinal.
Você respira enquanto o seu corpo treme e os seus olhos se inundam de lágrimas que você não convidou. Vai passar. Você ofega sem querer. Se xinga por dentro: “pára, porra! Pára de chorar” e vai passando. O seu peito ainda pesa duas toneladas, sua cabeça ainda dói. Você pensa na dor e alguma coisa sobe de volta a sua garganta, os lábios tremem, mas você os controla. Vai passar. Os olhos cheios de lágrimas. Vai passar. A dor de cabeça, a dor invisível que te aperta o coração, um punho fechado e vermelho o apertando. Você está coberto de sangue, não vê mas sente. O rosto está vermelho, quente com todo aquele sangue. Vai passar.