quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Eu não quero esquecer disso

São Gonçalo, 4 de janeiro de 2011. Era uma terça feira de chuviscos e céu cinza, e eu havia decidido ir ao mercado -aonde eu nunca vou- por que decidira melhorar definitivamente minha alimentação.

Voltando do mercado e me concentrando no peso das compras eu tinha esquecido da falta de rumo que havia me atormentado nos dias anteriores. Eu não havia me sentido completa em lugar nenhum, e aonde quer que eu fosse, não conseguia fugir de mim mesma. Meu maior fardo. As compras haviam conseguido afastar o pensamento e a falta de lar temporariamente. Sei que preciso encontrar meu lugar dentro de mim, mas nos últimos dias o meu interior era o lugar que eu mais queria evitar.

Ouvi um suspiro de cansaço ao meu lado e achei que era alguém da faculdade, dado o bairro no qual eu me encontrava. Olhei para o lado e uma mulher que eu jamais havia visto se desculpou, perguntando se me havia assustado. Respondi que não, que achava que o suspiro teria vindo de alguém conhecido, ao que ela, bem humorada, disse que não havia problema, que poderíamos nos conhecer.

Caminhávamos na mesma direção e fomos andando juntas enquanto ela falava das coisas que precisava fazer. Disse que ia resolver um problema com o namorado. Eu fiquei espantada com o tópico, achei que falaríamos de futilidades, mas em alguns minutos ela me contou a história de seu reencontro com seu amigo de infância, que ela não via há 30 anos e cujo sorriso era a única coisa da qual se lembrava. Me perguntou se eu tinha religião, o que é um ponto complicado para mim -o dom de acreditar, de crer não é uma virtude da qual eu possa me orgulhar- eu disse que não, e ela me disse ser espírita, o que me agradou. As pessoas que seguem o espiritismo me parecem muito equilibradas, e ela me disse que tinha total certeza de que esse homem era sua alma gêmea, disse que a alma gêmea é alguém com quem nos encontramos em várias vidas, que só existe uma e que pode demorar várias encarnações até que encontremos novamente essa pessoa. E se não estivermos prontos em uma vida, voltaremos em outra para aprender até que estejamos prontos para encontrá-la. Acho isso lindo. Eu já estava familiarizada com o conceito, mas foi interessante ouvir sobre o destino da forma que ela colocou. Nada é por acaso, ela me disse, afinal ela havia reencontrado esse homem agora, justamente quando pedira a Deus que acabasse com sua solidão e que quando Ele mandasse o homem certo lhe enviasse também um sinal. Ao ver o homem, ela havia tido taquicardia e quase desmaiado, e brincou que na próxima pediria a Ele para “pegar leve no sinal”.

Ela disse que não era mais adolescente para tremer e ter o coração disparando quando via alguém, e estranhamente eu sabia exatamente do que ela estava falando. Não acredito em muitas coisas, mas impedir manifestações exageradas de meus batimentos cardíacos tem estado fora do meu alcance há algum tempo. Ela disse ter 48 anos e se chamar Sandra, disse que morava algumas ruas mais a frente. Ela tinha enormes olhos azuis e um bom humor notável. Havíamos parado em frete a vila aonde eu morava para que ela pudesse terminar a história. Perguntou meu nome e o elogiou, quando nos despedimos eu desejei a ela e ao seu relacionamento profético tudo de bom, e desejei dentro de mim, de coração, que ela fosse muito feliz.

Talvez a quisesse bem porque soubesse que não a veria de novo. O fato é que me sentia imensamente grata pelo lirismo que ela despejara em meu dia chuvoso. Eu via as cores e todos os belos tons de cinza ao redor porque uma desconhecida se abriu para mim e falou de amor. Quando nos despedimos ela disse que 2011 seria um ano muito bom para mim “Você vai conquistar muita coisa”, foram suas palavras. Ela falava como se soubesse, como se tivesse visto acontecer, e apesar da minha dificuldade em crer eu acreditei.

4 comentários:

F. Marcel disse...

Mais uma vez eu repito: vc escreve muitíssimo bem!
Começo a ler e simplesmente congelo até terminar. É tudo muito profundo e real. Parabéns!
E que os desejos da simpática moça se realizem pra ela e pra vc em 2011.

Bjos!

Vicentini; Luiza. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Madai disse...

Lu, parafraseando suas belas palavras, eu sou grata pelo lirismo que você despejou em meu dia chuvoso com esse texto!
Obrigada por compartilhar esse momento comigo.

paulinha_galluzzi disse...

I`ve just started to become a big fan of your writing girl..
You`re very talented.