terça-feira, 19 de março de 2013

Palavras boas para quem merece


Era um bebê de pele branca, grandes olhos escuros e cabelos muito negros. Um guri de sorriso sem dentes, que vinha fácil. Caras de indignação e mau humor às vezes também se firmavam em sua tez expressiva. Sobrancelhas unidas, olhos transbordantes. Transbordavam de alegria e tantas outras emoções efêmeras que um bebê pode experimentar.

Depois foi um garotinho engraçado, com dentes de leite arredondados, cabelinho penteado para o lado e uniforme do flamengo. Os adultos tentavam fotografar enquanto chutava a bola de futebol. Gritavam gol e celebravam, ele era o sorriso da casa, o pequeno rei do jardim da avó, que se tornava gramado, e chinelos marcavam as traves de um gol sem goleiro.

Cresceu mais um pouco, e gostava de atenção e de brincar mais do que de brinquedos. Gostava das pessoas, da tia, das primas que eram obrigadas a fazer tudo o que ele queria, porque eram mais velhas. Reclamava e cobrava seu direito de rei da casa, fazia queixa para a tia, dizia: “briga com elas que elas não querem brincar comigo.” E ela brigava mesmo.

Largou o futebol e abraçou o videogame. Jogava Playstation e se gabava das habilidades que o pai tinha no jogo. E quando alguém gostava de algum brinquedo ou jogo ele oferecia: “Você quer? Eu te dou.” E muito jovem aprendeu a ser generoso sem ninguém ensinar. Ensinava a generosidade a crianças mais velhas sem sequer saber que tal virtude portava esse nome. Sem saber o que era ser virtuoso. Sem intenção de reconhecimento. Se doava por amor. Por querer expressar amor. Por ter nascido sabendo o que muitos passam a vida toda sem aprender: sabia que as coisas materiais não tem valor algum. Sabia sem sabê-lo. Era inocente e livre das correntes que nos prendem às coisas que se compram. Prendia-se aos que o amavam. Mesmo sendo um menino, era muito nítido para ele de quem gostava e quem queria por perto.

Crescia mais e não gostava de ver ninguém chorando. Ia perguntar o que tinha acontecido. Ficava ao lado. Segurava a mão quando lhe diziam que não era nada.
Gostava de ficar com os primos mais velhos, gostava de piscina, de marco-polo, de bola, de frescobol. Perguntava sobre coisas que não sabia.

Adolesceu e formava, aos poucos, as próprias opiniões. E, adolescente, passava a debater em vez de perguntar. De tudo já sabia um pouco, e discordava de si mesmo de vez em quando, o que é muito natural, é claro. Quando não podia ter o que queria, abria mão do que já tinha para alegrar as pessoas que mais amava, como quando, no país do consumo, não conseguindo comprar seu desejado eletrônico, em vez de procurar outra coisa, usou o dinheiro que guardara para presentear seus companheiros de viagem à Disneyworld.

Jovem, experimentava, questionava e ainda questiona. Erra, descobre, se defende, não erra, acerta, quer, como todos, ser reconhecido. Tem uma visão um pouco diferente da que tinha antes sobre as coisas materiais, mas é claro: na vida se aprende a não se dar tudo o que se tem, caso contrário seria um santo  ou um tonto, e pra falar a verdade ninguém gosta de nenhum dos dois.

Espero que ele sinta, sem racionalizar muito, que a felicidade está em amar e receber amor, ter a atenção de quem se ama. Pertencer. Pertencer ao grupo de amigos da escola, pertencer a uma família que daria a vida por ele, fazer parte da vida, parte da foto, parte do churrasco, parte da festa de fim de ano, parte da festa do colégio, do aniversário da prima, do casamento do padrinho, da vida do pai e da mãe, mesmo que essas sejam vidas diferentes. Espero que ele saiba que palavras são muito importantes, que retém muito poder. Poder de consolar, de alegrar, de transmitir o que há de mais belo dentro de nós, assim como o que há de mais sombrio. Felizmente, temos o direito de escolher não falar. No entanto, não falar o que há de belo para ser dito pode ser um grande desperdício de afeto.

Do perdão também se faz a felicidade, e da capacidade de, antes de tudo, perdoar a si mesmo. Somente errando se pode evoluir, se pode fazer uma escolha melhor, se pode acertar. E para evoluir, devemos ser gentis com nós mesmos em relação aos nossos erros. Talvez não pudéssemos fazer nada melhor no momento, talvez não soubéssemos das consequências das nossas ações e por isso deixamos que elas reverberassem.

Gostaria que ele pensasse um pouco em como é bom saber que fazemos falta em algum lugar. Que as pessoas perguntam por nós, que queriam nos ver, que talvez pudéssemos somar ou contribuir para a felicidade de alguém que sente por nós somente amor. Que algumas palavras, sorrisos e principalmente a nossa presença faz diferença para alguém.

Talvez esse não seja um conselho dos melhores, talvez não seja sequer um que eu possa me gabar de seguir mas gostaria de dizer a ele que nunca economize palavras boas para aqueles que mais merecem. Especialmente para pessoas que se  importam com sua felicidade. Palavras vem de uma fonte que dura enquanto estivermos vivos, talvez durem até depois de nossa existência e o que podemos fazer é escolher as melhores palavras para deixar no mundo. Acho que as pessoas ao redor dessa pessoa maravilhosa que ele é talvez mereçam mais palavras, e talvez palavras melhores.

Ele tem um enorme coração, e me orgulho muito de ter conhecido um guri assim, de ter sido obrigada a brincar com ele, e de ter recebido inúmeras ofertas de brinquedos que ele queria me dar e não aceitava para não me aproveitar de sua suposta inocência. Lembro de na época pensar que ele era bobo. Quando a boba era eu. 

Um comentário:

Juliana disse...

Que bonito, Luíza!