sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Impessoal?

Dizem que o escritor (o artista) não é dono da sua obra. Ensinam isso na faculdade de Letras. Quando Carlos Drummond disse que sua preciosa pedra no caminho era somente uma pedra, denotativa mesmo, um mineral, isso não mudou a visão dos teóricos. Claro que existem formas de ver, de interpretar. Alguns pensam que se o autor não é o dono de sua obra, qualquer interpretação é válida. Obviamente, essa argumentação é inválida, pois a interpretação livre é, também, controlada. Assim como antes me disseram para não estudar a obra baseando-se na vida do autor. Mas ainda sim, alguns reflexos pessoais são inegáveis. Não descobri ainda porque isso me incomoda tanto.

No meio do caminho

"No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra"
(Carlos Drummond de Andrade)
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Existem duas formas de entender o poema, certo?
O caminho poderia ser uma rua, ou a representação da vida. A pedra poderia ser um desafio, um inconveniente, ou o único aspecto a ser lembrado nesse caminho, dessa rua na qual não se enxerga nada além de uma pedra.
O ponto é que não acho que exista literatura impessoal. E ao mesmo tempo, a literatura não é psicografia. É um trabalho. E é realmente inegável que há mais de uma interpretação. Quando descobrimos uma segunda interpreteção que cabe naquilo que escrevemos é uma surpresa boa. Significa que o texto é rico. Que há espaço para mais, sem ser sufocante naquilo que queremos, sem ser solto a ponto de fugir do que pensávamos em escrever. Eu me avalio duas vezes. Sou escritor, mas, mais do que escrever, eu leio. Leio sempre e repetidas vezes a mim mesmo. E a cada releitura me desgosto mais, vou ficando mais chato, implicante, crítico, e se há paciência, trabalho, lapido o texto, se não há, guardo o rascunho, escondendo a pedra bruta do mundo, é só a mostro lapidada.
Se acredito em inspiração? Não existo sem ela. Às vezes o texto vem, pronto na cabeça, sei o que e como escrever, mas sem inspiração ele não sai, estaca. As palavras não fluem em riacho, ficam em poça rasa. Inspiração ajuda muito, e ao mesmo tempo, a literatura é trabalho, a arte é pensada e medida, é um fruto. Mas esse fruto não paira no ar, ele precisa de uma árvore, de um caule. "An apple doesn't fall too far from it's tree" um filho não pode ser muito diferente do pai. "Um fruto não cai muito distante de sua árvore", e um texto não vai muito além de seu criador. O texto pode não ter semelhança com seu autor, mas tem um DNA. Eu, por exemplo, uso a palavra "era" o tempo todo. Já me disseram que são muitos verbos, que fica pesado. E esse meu pretérito imperfeito é uma chave sem ser chavão. É narrativa do momento que mal acaba de passar, quase presente pairando no ar... O corte já foi feito, mas ainda dói.
"era um pôr-do-sol..."; "era o momento" ; "era uma ressaca sem cheiro"; "era agora..."; "era..."; "era..."; "era..."
Faz parte do meu escrever. O estilo Machadiano tem traços fortíssimos, o meu tem "era". Escrever literatura é um prazer para os escrivões/escritores, escrever uma dissertação, um artigo, uma resenha... Isso é necessidade, é seguir um padrão. Literatura é fazer o seu padrão. O meu começa com "era...", e não tem nada de impessoal. Suar encima de um texto para que ele seja seu, suar por prazer não tem nada de impessoal. Nada mesmo.

2 comentários:

a_rosa disse...

"Literatura é fazer o seu padrão. O meu começa com "era...", e não tem nada de impessoal. Suar encima de um texto para que ele seja seu, suar por prazer não tem nada de impessoal. Nada mesmo"

Eu adorei essa parte! fiquei pensando qual a minha marca, bem, eu nao escrevo era... nao sei mas acho que tudo que escrevo é de algum jeito engraçadinho rs... vou pensar mais sobre isso! rs

Gui Lopes disse...

Ai, ai, a rosa é realmente uma fofa! rsrs, seus escritos também são fofos sou grande fã dela. Assim como sou seu. E cá entre nós, deixemos essas discussões teóricas com os teóricos. Escrevamos, façamos a nossa arte, e ponto. Deixemos que os teóricos que se virem pra lá, eles é que inventam um monte de coisas, às vezes infundadas.
Abração!

P.s.: Um dia, no meio do meu caminho, havia uma bicicleta.